O círculo de dentro

21.6.09

Luz

O despertar humano, o despertar de um ser humano, deve ser qualquer coisa comparável ao nascimento de uma estrela. Ou ao processo de criação de um fotão. Ou ao eclodir do fruto na árvore. Ou à vibração mágica das cordas que virá a tomar o nome de palavra.
Essa magia está espalhada pelo Universo todo. Da galáxia mais distante, à esplanada do café. Por vezes, basta contrariarmos um pouco aquela estranha ideia que nos tolda desde a nascença segundo a qual, para ver, basta ter os olhos abertos. Nada há de mais falso.
E mesmo a ideia de termos já despertado é normalmente um artifício mais ou menos voluntário sob o qual repousa ainda a nossa obscura forma antiga.

A Luz é silenciosa e imprevisível. A Luz exige que lhe entreguemos o coração incondicionalmente. Sem dela esperar outro prémio ou honra que não seja a sua própria presença, pois também ela se entrega sem condição ou limite.

Depois o Ser desperto percorre os dois caminhos do jardim: o que o conduz ao próprio caminhar e o que o leva, discretamente, ao encontro e auxílio de outros buscadores que erram pelo mundo.
Nenhum outro mistério existe. Tudo é ilusão.

17.1.09

Estive a pensar*.

*dar de comer ao gado.

17.9.08

Serviço Público




"A criança mágica (receita para fazer um bolo)


I

Contam-se as estrelas devagarinho.

O número a que se chegar

quando só faltarem as estrelas

que há por contar,

é a idade da Criança Mágica.

Depois vai-se ao rio lavar a cara

e ouvi-lo falar a língua estranha

com que se escreve a palavra

que secreta nos aguarda

dentro de um espelho de peixes.

Depois talvez chova. E corra vento.

O vento sobre a água

será o amor a recordar-nos

que viemos do Um."




de Alburneo

Disponível na Fnac do Gaiashoping, Livraria Velhotes, Café Monami e Intemporal (Bistro maison) em Vila Nova de Gaia. Na Livraria Poetria, no Porto. A Fnac de Santa Catarina não quis.


28.8.08

Tenho uma imensa dificuldade em perceber as coisas. Fico sempre com saudades antecipadas da verdade.

Alburneo, Fragmentos

22.8.08

Depois de uma longa caminhada ao sol que lhe encharcou com suor a roupa toda, disse:
- Estou todo a chover.

Alburneo, Fragmentos

Marcha

A Marcha faria mais sentido num congresso sobre Psiquiatria do que como modalidade Olímpica. Por falar nisso, quem será o deus da Marcha?

20.8.08

Crise Olímpica

O Crepúsculo dos Deuses.

Salto Mortal


Chama-se Salto Mortal a uma rotação de 360 graus que o corpo faz sobre si próprio no Ar e na vertical. O seu nome engana. Ele é Mortal porque simboliza a passagem do Ser pela porta do infinito, o que, em boa verdade, é uma forma de Imortalidade.


Imagem: http://www.flickr.com/photos/19843402@N00/372376302/

9.8.08

Súbditos de sua majestade

O mais alto representante do Estado Português esteve ausente da cerimónia de inauguração dos Jogos Olímpicos de Pequim, o mais importante acontecimento mundial dos últimos séculos, por "razões de agenda". O império Britânico sabe escolher os seus súbditos: nunca primam pela inteligência.

Jogos Olímpicos de Pequim

A cerimónia de abertura do Jogos Olímpicos de Pequim inaugurou não só o mais importante acontecimento desportivo do mundo, mas uma nova era desse mesmo mundo. A China deu a conhecer um novo paradigma civilizacional, um novo modelo de liderança, de força e de criatividade. O mundo caminha, sob o seu exemplo, no trilho da transformação arquetípica. Em oposição ao esgotamento e à decadência dos modelos estéticos e filosóficos do ocidente, centrados no individualismo feroz, do Oriente ergue-se uma nova luz de esperança na comunidade humana, na sua evolução colectiva e nas realizações que dela se aguardam nos futuros ciclos do Tempo.

Foi uma cerimónia comovente onde mais do que a herança de milhares de anos de história e civilização, a China mostrou os novos caminhos da transformação do Espírito. Julgo que há muito tempo o mundo não assistia a uma tão eloquente manifestação de poder nem a um tão claro entendimento das leis cósmicas.

29.7.08

Tragédia

Perder instintos sem conquistar poderes.

Vertigem

"Revenons alors à notre exemple du vertige et considérons une brute sans imagination ou un mulet lourdement chargé qui longent le même précipice abrupt que nous tout á l'heure sans y prêter attention et sans même tourner la tête. Peut-on parler chez eux d'un véritable rapport noué avec le monde? Avec leur monde, oui, avec le nôtre, non. Cette brute et ce mulet vivent dans un mode du monde où l'abîme n'est pas posé pour tel, et où seul le sentier où ils ont toujours marché est visible."

Raymond Abellio, La structure absolue

25.7.08

Regressar a Fernando Pessoa

"Nunca fui mais que um boémio isolado, o que é um absurdo; ou um boémio místico, o que é uma coisa impossível."

O Petróleo

A teoria da origem orgânica do petróleo sustenta que ele se forma a partir de detritos orgânicos procedentes da superfície terrestre. Em síntese, isto significa que a generalidade das economias do mundo se alimenta da sua própria merda.

23.7.08

16.7.08

A ruína de Portugal será a ruína da Europa.

a parte da árvore que não se via era as crianças

8.7.08

as crianças partiram a árvore do jardim. fizeram dos dois pedaços uma baliza.

19.6.08

Se não Há Deus o que é que Há?

16.6.08

Uma expressão muito usada mas em desuso, que toma várias formas harmónicas:
"Esta árvore dá-se bem aqui."

Dar-se.
Eis o segredo que busca quem busca.

12.6.08

A canção diz:
"A morte é uma romagem de saudade ao lugar onde se nasceu."
É tão sublime que tem que ser verdade.

23.5.08

Cheguei e lá estava ela, vestida de deuses.

21.5.08

12.5.08

Por vezes vejo brilhos.

28.4.08

teu Ser postiço.

21.4.08

Há no mundo um certo conjunto de pessoas que, nos dias em que um vento forte sopra e a chuva brinca vigorosamente com as folhas das árvores, sentem a imediata necessidade de escrever num papel que um vento forte sopra e que a chuva brinca vigorosamente com as folhas das árvores.
Escrevem-no quase sempre de formas diversas, muitas vezes não o escrevendo. Fica a ideia que algo muito forte une essas pessoas.

11.3.08

Sei que sou parte do Pensamento de Deus, mas não sei ainda como acreditar nisso.

18.1.08



11.12.07

Água

Água. Sobre água. Sobre água.
Desagua, deixa a água e vem. Volta.
Água. Sobre água.
Agora verte sobre o leite a água que corre o leito.
Sonha o teu Vale.

Água. Deixa a água. Desagua como a nuvem
que cala a tempestade. Água.
Vaza a água. Calca o Vale.
Volta à água. Voa a águia. Céu de água.

Vento. Verte o vento. Sobre a água – o momento é eterno
como a gota que alimenta a boca que é Verbo e água.
Água. Sobre o vento. Sobre a água alimento da mágoa
cujo tempo, infinito, imparável, sabe ao vento, à imagem
em que vive a miragem do desejo.

-Sobre o Vale corre livre a nuvem branca,
a água eterna, a fonte mater, a gota leve,
a flor dormente, a alma breve.

Água. Sobre a água.
Vento. Sobre o vento. Sobre a água do momento.
Vem a água, pensamento, torna à alma, por instantes, por que invento.
Vento. Dentro do vento. Dentro do tempo.
Dentro da água: movimento do aroma de não estar cá.

Sente a nuvem. Sente a água. Sente o vento.
Vê o Vale. Ouve a águia. Sê o tempo em flor tardia, aos pés do céu.
Porta que abre para o lado do sem fim.

Água. Sobre a água. Espera o vento, sobre a noite,
sobre o tempo, sobre o sol, sobre ti, imenso Eu.
Sobre nós, corda alada que ao mar grande abre a estrada de luz.

Alburneo, Urdiduras

7.12.07

20.11.07

Estar perto do silêncio.

13.10.07

Voa, Alma! Traz-me odores do Mistério de voares!

Alburneo

26.9.07

Pensa com detalhe

Que te traz aqui?

14.9.07

Consciência Celeste

"A luz do céu não pode ser vista, está contida nos dois olhos."

Lu Dsu
Tai I Gin Hua Dsung Dschi

6.9.07

Penso em VOS

Vis, Otium, Scientia.

21.8.07

Pitágoras

"Dizia Pitágoras que a cosmogonia do mundo visível leva-nos à história da terra. A história da terra conduz-nos ao mistério da alma humana. Aí tocamos no santo dos santos, no arcano dos arcanos. Uma vez desperta a sua consciência, a alma transforma-se no mais admirável espectáculo para ela mesma."

Os grandes iniciados, Edouard Schuré. Vega.

31.7.07

Zoom Out sobre o Deus anglo-saxónico

Ta(r)o

O Tao convertido ao movimento circular.

29.7.07

Plágio

Que saudades eu tenho de amanhã.

11.7.07

Repara neste cheiro, desafia o adulto.
A criança repara e responde: cheira a noite.
O adulto inspira de novo e desta vez tenta não limitar-se aos pulmões. Sustém o ar e o espanto e quebra o silêncio: cheira a noite.
Não, diz a criança definitiva. Cheira a flores vivas!

25.6.07


28.5.07

Cresço desalmadamente.

Fragmento.

24.5.07

"Se te vires a afundar num pântano, não tentes saír. Mergulha!"

Carl Gustav Jung

16.5.07

A casa de Deus

Enquanto procurava o Universo em mim
encontrei-te na nuvem que por mim clamava.
Aflita.
De me não ver na chuva.
Porque buscas a verdade como um garimpeiro?
Já não vivias em mim.
Eras o espaço que separa as partículas de pó
onde voa a minha lida na casa de Deus.
A nuvem que clama é bem uma recordação diminuta.


Enquanto o Universo perguntava por mim,
achei-te na chuva, no pó dos livros, na varanda sinistra.
Quis ser trovão mas a alma conteve-se.
Quis ser o espaço que a forma ocupa
mas outro Deus se ergueu.


Eu era as partículas do pó
e tu a vassoura impondo-me o Infinito.
Fiquei cego aos quarenta.


Alburneo, Urdiduras

15.5.07

Abraxas

10.5.07


7.5.07

pelo universo, alma adentro.

2.5.07


25.4.07

Pó.

13.4.07

Cultivar a dúvida até perder o chão.
Cair ou ganhar o Ar.

Fragmento.

2.4.07

Deve viver-se devagar para dar tempo ao infinito.

Fragmento

28.3.07

"Existe um sítio, escondido no mar,
para onde as gaivotas voam à noite,
a buscar o segredo que guardam nas asas
e que tão estranhamente as faz voar."

Fragmento antigo.

8.3.07

É o tormento, dizes-te.
E engravidas a palavra
para que um novo mundo te contemple
multiplicado por muitos.
É o tormento, dizes-te.
E ficas dentro de ti parado
à espera de um momento impossível,
à guarda da paz que se some
entre os dedos
e vai ser alegria num lugar
que é muito longe,
numa terra distante, inacessível,
para onde a tua alma então voa
sem esperança nem mistério.

Alburneo, Urdiduras

20.2.07

Polarização

Apontamento:


A consciência pode equiparar-se ao Fotão, à Luz, cujo aparecimento resulta, nomeadamente, da união de duas entidades de naturezas opostas, o electrão e o positrão.
O Homem Ser Vivo criou vários graus de complicação da sua natureza ao longo dos séculos. Esses graus de complicação correspondem, no caso da geometria do círculo, por exemplo, a crescentes níveis de polarização e à correspondente criação de polígonos regulares nele inscritos. Essa polarização produz o mais simples polígono (?), o triângulo, e evolui pela complicação até à suprema simplicidade, o próprio círculo de novo, que é um polígono com um número infinito de lados.
Essa polarização que vai do círculo ao círculo, do supremamente simples ao supremamente complicado que é a simplicidade suprema, através de crescentes níveis de polarização, descreve por analogia não só o processo de transformação e evolução da consciência, mas também o de complicação ou institucionalização da natureza do Homem enquanto Ser Vivo: Ser Humano, Pessoa, Cidadão, Contribuinte, Consumidor, etc.

O grau mais elevado de consciência que o Ser Humano pode alcançar depende do nível de liberdade (?) em que essa mesma consciência opera. Resulta, por isso, do grau de complicação a que se submete. Quanto menor for essa complicação da sua essência, quanto mais próximo ele estiver da sua condição simples de Ser Vivo, mais próximo estará de Si Mesmo e da consciência que é. É possível que esse estádio se atinja através de uma progressiva complicação da consciência, a tal polarização do círculo, que após ter tomado a forma de todos os polígonos regulares intermédios, atinge o de número infinito de lados, ou seja, regressa ao início da sua aventura. Este processo demonstra que a morte não é outra coisa senão a vida.

Mas, tal como se disse atrás, a consciência resulta da interacção e “aniquilamento” de um par de opostos. Este aniquilamento deve ser entendido no sentido da transformação e não no do puro e simples desaparecimento. A partícula funde-se com a sua anti-partícula, ou seja, o Eu funde-se com o Outro e ambos desaparecem para dar origem a um terceiro que é a sua síntese: a Luz. A Luz é a cópula de dois contrários que na sua união descobrem o caminho secreto que traz todas as coisas ao lugar da manifestação. Ela é a matriz sobre a qual se desenvolve toda a complicação até à simplificação suprema, o movimento de polarização do círculo que se inicia com o Triângulo: Positivo, Negativo, Luz. Activo, Passivo, Movimento. Consciente, Inconsciente, Supraconsciente.

Alienação
s.f. Acto ou efeito de alienar. Cessão de bens. Arroubamento do espírito.

O Estado e a Religião são duas das maiores criações da humanidade.
São duas super estruturas destinadas a comandar dois níveis fundamentais da energia psíquica: um, do qual emana a vivência do profano e outro de que resulta a vivência do sagrado.
O profano é tudo aquilo que se relaciona com “este mundo”.
O sagrado é tudo aquilo que não se relaciona com “este mundo”.
“Este mundo” significa o estado objectivo e individual de desenvolvimento da consciência, na sua dimensão essencial, ou seja, na sua capacidade de transformação de energia no sentido da ampliação do poder dessa mesma consciência.
A consciência é, em potência, a infinidade dos mundos. Em acto pode não passar de uma casca de noz.

15.2.07

O bater do coração

A que porta bate?

22.1.07

"5.
Jesus disse:
Conhece o que está diante dos teus olhos,
e o que te está oculto ficará descoberto na tua frente;
pois nada existe de oculto que não venha a manifestar-se."

O Evangelho segundo Tomé

14.1.07

"4.
Jesus disse:
O homem velho, com os seus muitos dias, não hesitará
em interrogar uma criança de sete dias
sobre o lugar da Vida
e viverá,
porque muitos dos primeiros se farão últimos
e serão um único."

Sabes bem que mais do que escrever para ti escrevo sobre ti.

7.1.07

Ele está no centro de nós. Na ponta do compasso.
Será o compasso?

Fragmento

6.1.07

"3.
Jesus disse:
Se os que vos guiam vos afirmarem:
olhai, o Reino está no céu,
então os pássaros do céu preceder-vos-ão ;
se vos disserem que está no mar,
então os peixes preceder-vos-ão.
Mas o Reino é dentro de vós
e é fora de vós.
Quando vos conhecerdes
sereis então conhecidos
e sabereis que sois
os filhos do Pai, o Vivo.
Mas se não vos conhecerdes,
então estareis na pobreza,
e sois vós a pobreza."

O Evangelho segundo Tomé

21.12.06

"2.
Jesus disse:
Aquele que procura não deixa de procurar
até encontrar;
e quando encontrar,
ficará perturbado,
e, estando perturbado,
ficará maravilhado
e reinará sobre o todo."

O Evangelho segundo Tomé

17.12.06

"Estas são as palavras ocultas que Jesus, o vivo, proferiu e que Dídimo Judas Tomé transcreveu:

1.
E ele disse:
Aquele que encontrar a interpretação destas palavras
não experimentará a morte."

O Evangelho segundo Tomé

3.12.06

Tao Te King

Durante pouco mais de um ano, transcrevi aqui os 81 textos que compõem o Tao Te King.

A partir da próxima entrada ler-se-á em sequência inversa, do último para o primeiro texto. Para começar do início e na sequência natural será necessário aceder ao arquivo de Novembro de 2005.
O livro é atribuído a Lao Tse, que viveu no século VI a.c.
Da bizarra experiência pouco retive que possa expressar. Se disser que é o mais elevado exemplo que conheço da Arte Real, direi o essencial.

Tao Te King, Lao Tse. Editorial Estampa.

"As palavras verdadeiras não são agradáveis;
as palavras agradáveis não são verdadeiras.
Um homem de bem não fala muito;
quem fala muito não é um homem de bem.
A inteligência não é a erudição;
a erudição não é a inteligência.

O santo proíbe-se de armazenar;
dedicando-se aos outros, enriquece,
depois de ter dado tudo, ainda fica com mais.

A via do céu traz vantagens sem prejudicar;
A virtude do santo age sem reivindicar."

Tao Te King, LXXXI

"Uma nação pequena e pouco populosa
pode possuir algum armamento [1]
que não deve empregar.

É necessário que o povo considere a morte temível
e que não vá muito longe;
Mesmo que possua embarcações e carros
que não os utilize.
Mesmo que possua armas e couraças
que não se sirva delas.
Que volte a preferir os cordões com nós [2]
e que os utilize.
Que ache saborosa a sua própria comida,
que ache belos os seus trajos,
que se contente com a sua habitação
que se alegre com os seus costumes.

Os habitantes de dois países vizinhos
contentam-se em observar-se mutuamente
e em ouvir os seus cães e os seus galos;
morrerão de velhice
sem que se tenham visitado."

[1] Yu Yue diz: "Os utensílios para as dez ou as cem pessoas indicam os instrumentos do exército."
Cf. Tchou-K'ien Tche, Lao Tse Kia0-che, p. 197.

[2] A China, na Alta Antiguidade, não possuía a escrita. Utilizavam-se cordas com nós para marcar os acontecimentos do ano. O nó era grande ou pequeno, consoante a importância do acontecimento. Cf. Tseu Hai, p. 104


Tao Te King, LXXX

"Aquele que consegue aplacar um grande ressentimento
deixa sempre subsistir algum ressentimento.
Poderá isto considerar-se como um bem?

Eis prque o santo guarda a metade esquerda da tabuleta
mas nada exige dos outros [1].
Quem possui a virtude não se interessa senão pela tabuleta
aquele que não possui a virtude não se interessa senão em receber o que lhe devem.

A via do céu ignora o favoritivismo,
recompensa sempre o homem de bem."

[1] Para explicar este antigo costume chinês, transcreve-se a nota de Duyvendak:
"Para concluir uma venda, faziam-se duas tabuletas iguais numa madeira e o credor guardava o pedaço da esquerda. Embora aquele que pratica a virtude guarde a tabuleta, isto é, a prova da dívida da outra parte, não exige pela força que a obrigação seja cumprida."
(Duyvendak, Livro da Via e da Virtude, p. 179)

Tao Te King, LXXIX

"Nada é mais flexível e fraco do que a água,
mas para vencer o que é duro e forte, nada a ultrapassa
e nada poderá substituí-la.

A fraqueza vence a força;
a flexibilidade vence a dureza.
Todos o sabem
mas ninguém o consegue por em prática.

Assim o santo disse:
aceitar todas as omindices do reino
é ser senhor do solo e dos cereais[1].
Aceitar os males do reino
É ser o monarca do universo.

As palavras da verdade parecem paradoxais.

[1] Na Antiguidade, o rei devia fazer oferendas ao espírito do solo e ao espírito dos cereais, pois são a terra e os cereais que dão de viver ao povo. O rei, chefe supremo, detinha o direito e o dever de sacrificar a esses dois espíritos. É por isso que se pode dizer que ele é "o senhor do solo e dos cereais" (Cf. Tseu Hai, p. 976).

Tao Te King, LXXVIII

"A via do céu não procede
como aquele que retesa um arco?
Abaixa o que está no alto
e eleva o que está em baixo;
retira o que está a mais
e fornece o que faz falta.

A via do céu retira o excedente
para compensar onde falta.
A via do homem é bem diferente:
o homem retira ao indigente
com que enriquecer o opulento.

Quem pode dar ao mundo o que tem de supérfulo
senão aquele que possui o Tao?
O santo age sem esperar nada,
realiza a sua obra sem se prender a ela
e oculta o seu mérito."

Tao Te King, LXXVII

29.11.06

"Os homens quando nascem são tenros e frágeis,
A morte torna-os duros e rígidos;
As ervas e as árvores quando nascem são tenras e frágeis,
A morte torna-as esquálidas e ressequidas.

O duro e o rígido conduzem à morte;
o fraco e o flexível conduzem à vida.

O exército forte não vencerá;
A grande árvore vergará.

A dureza e rigidez são inferiores;
A flexibilidade e a fraqueza são superiores."


Tao Te King, LXXVI

"O povo está faminto
porque os seus dirigentes o esmagam com impostos.
Eis o que o torna faminto.

O povo é indócil
porque os seus dirigentes são demasiado empreendedores.
Eis o que o torna indócil.

O povo despreza a morte
porque a sua vida é demasiado dura.
Eis o que o faz desprezar a morte.

Só aquele para quem a vida não é demasiado dura
pode apreciar a vida."


Tao Te King, LXXV

"Se o povo deixasse de temer a morte
como lhe faria medo a pena de morte?

Se se pudesse fazer com que o povo temesse
constantemente a morte
e se pudesse prender e condenar à morte
todos aqueles que violam gravemente as leis,
quem ousaria cometer um mal?

O carrasco existe para matar.
Aquele que mata e não é carrasco
é como aquele que talha e não é carpinteiro.
É raro que aquele que talha e não é carpinteiro se não fira nas mãos."

Tao Te King, LXXIV

"O chefe temerário deixa-se matar.
O chefe circunspecto sobrevive.
Destas duas maneiras de agir
a segunda é benéfica e a primeira nociva.
Da aversão do céu
quem conhece o porquê?

A via do céu
sabe vencer sem batalhas,
responder sem falar,
vir sem que a chamem
e formar os seus projectos com serenidade.

Apesar das suas grandes malhas
a grande rede do céu nada deixa escapar."

Tao Te King, LXXIII

23.11.06

"Se o povo deixa de temer o teu poder
é porque um grande poder se aproxima.

Não cerres o povo em estreitas moradas.
Não o oprimas, para não esgotares os seus meios de subsistência.

Se não oprimires o povo,
o povo não se cansará de ti.

O santo conhec-se e não se exibe.
Ama-se e não se valoriza
Eis porque rejeita uma coisa e adopta outra.

Tao Te King, LXXII

"Conhecer é não conhecer:
Eis a excelência.
Não conhecer é conhecer:
eis o erro.

Quem toma a consciência do seu erro
não comete mais erros.

O santo não comete nenhum erro
porque toma consciência deles,
eis porque evita todos os erros."

Tao Te King, LXXI

"Os meus preceitos são muito fáceis de compreender
e muito fáceis de praticar.
Mas ninguém consegue compreendê-los
nem praticá-los.

Os meus preceitos têm o seu princípio,
a minha acção tem o seu rumo.
Mas ninguém os compreende
e eu permaneço desconhecido do mundo.

Raros são os que me conhecem,
nobres são os que me seguem.
O santo, sob os seus trajos grosseiros
oculta um jade no seu seio.

Tao Te King, LXX

15.11.06

"Um estratega da antiguidade afirmou:
"Não ouso tomar a iniciativa;
Prefiro esperar [1];
Não ouso avançar uma polegada;
Prefiro recuar um passo."

A isto se chama
progredir sem avançar,
fazer recuar sem se servir dos braços,
ripostar sem flechas [2],
opor-se sem armas.

Não há maior perigo
que o de substimar o inimigo.
Subestimar o inimigo
é quase perder o seu tesouro.
Quando dois exércitos de igual força se defrontam
o que sofre por estar em guerra será o vencedor.

[1] Segue-se aqui a interpretação de Duyvendak, Livro da Via e da Virtude, p.159.
[2]O caracter ti, que significa rival ou inimigo, pode ter o significado do seu homónimo, que significa flecha.

Tao Te King, LXIX

"Um verdadeiro chefe militar não é belicoso.
Um verdadeiro guerreiro não é colérico.
Um verdadeiro vencedor não se envolve em guerras.
Um verdadeiro condutor de homens coloca-se abaixo deles.

Aqui se encontra
a virtude da não-rivalidade
e a capacidade de conduzir os homens.
Tudo isto está em perfeita harmonia com a lei do céu."

Tao Te King, LXVIII

"Todos dizem que a minha verdade é grande
e não se assemelha a nenhuma outra.
É porque é grande,
que não se assemelha a nenhuma outra,
porque se começasse a assemelhar-se a outra
há muito tempo que se teria tornado pequena.

Tenho três tesouros que conservo e a que estou ligado:
O primeiro é amor,
O segundo é economia,
O terceiro é humildade.
Amante, posso ser corajoso,
económico, posso ser generoso,
não ousando ser o primeiro entre todos
posso tornar-me o chefe do governo.

Aquele que é corajoso sem amor,
generoso sem economia,
e chefe sem humildade,
esse, vai caminhando para a morte.

Quem combate por amor, triunfa,
Quem se defende por amor, mantém-se firme;
O céu socorre-o e protege-o com amor."

Tao Te King, LXVII

10.11.06
















Postais chineses.

8.11.06

"O que faz com que o rio e o mar
possam ser reis dos Cem Vales,
é que ambos sabem colocar-se abaixo deles.
É por isso que podem ser reis dos Cem Vales.

Do mesmo modo, se o santo deseja estar acima do povo,
é-lhe necessário primeiramente diminuir-se em palavras;
se deseja encabeçar o povo
ser-lhe-á necessário colocar-se em último lugar.

Assim o santo está acima do povo
e o povo não sente o seu peso;
dirige o povo
e o povo não sofre com isso.
Eis porque todos o colocam de bom grado na dianteira
e não se cansam dele.
Como não rivaliza com ninguém
ninguém pode rivalizar com ele."

Tao Te King, LXVI

7.11.06

"Os antigos que praticavam o Tao
não procuravam esclarecer o povo.
Esforçavam-se por mantê-lo na ignorância.
Se o povo é difícil de governar
isso resulta do excesso da sua inteligência.

Quem governa um Estado servindo-se da sua inteligência
será o seu malfeitor.
Quem governa um Estado sem a ajuda da sua inteligência
será o seu benfeitor.

Conhecer as duas coisas
é conhecer o princípio de todo o governo.
Quem conhece este princípio possui a virtude suprema.

A virtude suprema é profunda e vasta;
opera de acordo com os hábitos dos seres;
permite atingir a harmonia universal."

Tao Te King, LXV

"O que está em repouso é fácil de conservar-se
O que ainda não aconteceu é fácil de evitar-se.
O que é frágil é fácil de quebrar-se.
O que é pequeno é fácil de dispersar-se.

Evita o mal antes que ele aconteça.
Estabelece a ordem antes que rebente a desordem.

Esta árvore que enche os teus braços nasceu de um germe minúsculo.
Esta torre com os seus nove andares provém de torrões de terra amontoados.
A viagem de mil léguas começa por um só passo.

Quem age falha.
Quem guarda perde.
O santo não age e não fracassa.
Nada conserva e nada perde.

Muitas vezes um homem que empreende um negócio
falha no momento exacto que vai triunfar.
Aquele que permanece tão prudente no final
como no início, não falhará o seu intento.
Assim o santo deseja o sem-desejo.
Não aprecia os tesouros cobiçados.
Aprende a desaprender.
Desvia-se dos excessos comuns a todos os homens.
Favorece a evolução natural de todos os seres
sem ousar agir sobre eles."

Tao Te King, LXIV

30.10.06

"Pratica o não-agir,
executa o não fazer,
saboreia o sem sabor,
considera o pequeno como o grande
e o pouco como o muito.
Ataca uma dificuldade nos seus elementos fáceis;
Realiza uma grande obra por pequenos actos.
A coisa mais difícil do mundo
reduz-se, afinal, a elementos fáceis.
A obra mais grandiosa realiza-se
necessariamente por pequenos actos.

O santo não empreende nada de grande
e pode assim realizar a sua própria grandeza.

Quem promete irreflectidamente raramente cumpre.
Quem julga que tudo é fácil encontra forçosamente mutas dificuldades.

O santo considera tudo difícil
e não encontra afinal nenhuma dificuldade."


Tao Te King, LXIII

24.10.06

"O Tao é o fundo secreto e comum a todos os seres,
o tesouro dos homens bons
e o refúgio dos que o não são.

Com belas palavras podem comprar-se honrarias;
com uma bela conduta pode subir-se acima dos outros;
mas porque rejeitar os homens que não são capazes de o fazer?

Assim, por exemplo, coroa-se um imperador,
instalam-se os três duques
oferece-se-lhes jades e quadrigas;
Nada disto é comparável
àquele que, sem se mover, oferece o Tao.

Por que razão os antigos respeitavam tanto o Tao?
Não é graças a ele que
quem procura encontra
e que todo o culpado se redime?
É por isso que ele goza de tão grande estima neste mundo."

Tao Te King, LXII

15.10.06

"Um grande país é um país de confluência,
o ponto de encontro de todas as coisas,
a fêmea do universo.

A fêmea triunfa do macho pela sua tranquilidade,
Ser tranquilo é submeter-se.

Um grande país que se humilha perante um mais pequeno
atrai-o a si.
Da mesma forma, um pequeno país que se inclina frente a um grande
ganha a sua protecção.
Assim, um acolhe pela submissão
e outro é acolhido quando se inclina.

Um grande país não aspira senão a reunir os homens
e alimentá-los.
Um país pequeno não deseja senão aliar-se ao grande
e servi-lo.
Certamente ambos obtêm o que desejam,
mas é necessário que o grande país se humilhe."

Tao Te King, LXI